
A atual crise na península coreana é mais um capítulo de uma história que teve início na década de 1950, quando a Guerra da Coréia inaugurou as hostilidades da Guerra Fria. Ao fim desse conflito não foi possível estabelecer um acordo de paz entre as partes e a Coréia foi dividida entre o Sul democrático e capitalista e o norte comunista e ditatorial. Hoje a Coréia do Norte é um país extremamente fechado e gasta quase a metade de seu PIB com armamentos.
Quais seriam as raízes desse comportamento dito “fora de lei” e agressivo da Coréia do Norte? A resposta encontra-se no fim da Guerra Fria. A Coréia do Norte não conseguiu se adaptar a esse fenômeno e ao perder seu maior aliado na região, a URSS, voltou-se para o isolamento. A “religião” oficial do país, conhecida como Juche, foi implantada por Kim Il-Sung, pai do atual presidente Kim Jong-Il, segue o princípio da auto-suficiência e identifica as influências estrangeiras como ameaças a sua segurança.
Enquanto o lado sul da Coréia prosperava no período do pós-Guerra Fria, o lado norte perecia em miséria.
As características nacionalistas e militaristas do regime comunista norte-coreano pioram a situação no sentido de prejudicar a cooperação com a Coréia do Sul e países vizinhos que buscavam tornar a Coréia do Norte um país integrado à comunidade internacional de nações. O programa nuclear norte-coreano se intensificou na década de 1990, pois Kim Jong-Il identificou nessa estratégica a única saída de um país pobre e vulnerável diante de intervenções estrangeiras. Foram realizados testes com mísseis que chegaram a sobrevoar o espaço aéreo japonês em 1998. Desde então, a política externa dos EUA buscou estabelecer canais diplomáticos com a Coréia do Norte para tentar minorar seu comportamento agressivo.
Durante a administração Clinton foram criadas as negociações conjuntas com o Japão, Rússia, China e Coréia do Sul e uma agência de energia para os norte-coreanos em troca do fim do programa nuclear de Pyongyang. O problema é que esse esforço de cooperação foi interrompido várias vezes pelos testes com mísseis realizados pela Coréia do Norte e o governo Clinton foi acusado de ajudar financeiramente um regime terrorista e trapaceiro. Em outras palavras, o dinheiro que deveria ser usado para investimento em outras formas de energia estava sendo usado pelos norte-coreanos para fins militares. Na administração Bush os problemas se agravaram quando os EUA incluíram a Coréia no seu “Eixo do Mal”, um grupo de países que estariam direta ou indiretamente financiando o terrorismo. As negociações não avançaram.
O elemento explosivo das crises na península coreana é o fato de envolver interesses diretos das Grandes potências como Rússia, China, Japão e EUA. Além disso, há uma alta probabilidade de uma guerra na península de espalhar e tornar-se um conflito internacional com potências nucleares. Qualquer solução pacífica em curto prazo é limitada pelo histórico de trapaças da Coréia do Norte e por sua conduta agressiva desde o fim da Guerra Fria. Neste caso, há um maior incentivo à retaliação do que a reciprocidade.

